domingo, 4 de setembro de 2011
"I love you, música portuguesa"
Há um ano saiu uma crónica... Escrita por humorista mais ou menos conhecido... :P
Li-a hoje, um tempito depois e dei-lhe toda a razão...
"Temo não saber inglês suficiente para compreender a música portuguesa. Não quero parecer velho, mas ainda sou do tempo em que a música portuguesa era cantada em português. Lembro-me bem dessa altura em que um aspirante a cantor conseguia pegar numa guitarra sem começar a verter as suas canções para uma língua que os turistas entendessem. Era estranho, claro. Gente portuguesa a exprimir-se em português sempre me fez confusão. Trata-se de um idioma bastante limitado, que restringe as possibilidades de expressão dos seus falantes, e portanto não admira que haja quem se veja forçado a recorrer à língua inglesa quando se trata de transmitir pensamentos realmente sofisticados, tais como "I love you, baby", "Please forgive me, baby", "Don't break my heart, baby" ou "Yeah, baby, you are my baby".
Não posso, no entanto, deixar de notar que ainda há um longo caminho para percorrer. Neste momento, os artistas portugueses que cantam em inglês ainda estão condenados a dar entrevistas em português. Como é evidente, fazem falta jornais portugueses escritos em língua inglesa - ou, pelo menos, jornais portugueses que, embora fazendo perguntas em português (se querem mesmo insistir nesse capricho), permitam que as respostas possam ser dadas em inglês. Caso contrário, prosseguirá esta violência desumana que consiste em forçar cidadãos a exprimirem-se na sua própria língua. Creio que há um ou dois artigos na Declaração Universal dos Direitos Humanos que censuram essa prática.
Felizmente, nem tudo joga contra os músicos portugueses que cantam em inglês. Por coincidência, a língua na qual eles se sentem mais à vontade é falada internacionalmente. Isso pode evitar-lhes embaraços parecidos com os que sempre afligiram os músicos portugueses com mais projecção lá fora. Todos nos lembramos dos concertos da Amália, sistematicamente interrompidos por espectadores que diziam: "Amália, what are you doing? Please sing in english! We don't understand you!" Para não falar do caso dos Madredeus, obrigados a tornar as suas letras mais acessíveis ao público estrangeiro ("À porta, I love you baby, daquela igreja, I miss you baby, vai um grande corrupio").
O meu único receio é que este desamor à língua portuguesa, e a ideia de que ela pode prejudicar o nosso ofício, tenham deflagrado no mundo da música e se propaguem a outras profissões. Que, por exemplo, um número considerável de canalizadores decida passar a consertar torneiras em inglês, para facilitar uma eventual carreira internacional, ou apenas porque tem mais estilo. "Let me unclog your toilet baby!" Enfim, não é o tipo de conversa que gostaria de ter com um canalizador. Embora reconheça que a frase talvez desse uma excelente música portuguesa."
de Ricardo Araújo Pereira
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
sombras
#100happydays
(8)
alma
(9)
amor
(22)
banda desenhada
(3)
cidades
(12)
ciência
(2)
cinema
(5)
crescimento
(38)
dança
(3)
fotografia
(12)
morte
(10)
mundo
(20)
poemas
(3)
rabiscos
(29)
recortes
(17)
redes sociais
(4)
relações
(42)
religião
(15)
ser_amizade
(17)
ser_amor
(22)
ser_arrependimento
(4)
ser_criança
(8)
ser_criativo
(17)
ser_esperança
(2)
ser_familia
(5)
ser_humor
(3)
ser_jovem
(3)
ser_leitura
(5)
ser_missão
(25)
ser_mulher
(10)
ser_música
(66)
ser_oração
(16)
ser_reflexão
(40)
ser_relações
(32)
ser_saudade
(7)
ser_sensibilidade
(6)
ser_solidário
(11)
ser_sorrisos
(2)
so o melhor_blogs
(13)
so o melhor_documentários
(1)
so o melhor_livros
(17)
so o melhor_séries
(2)
so_o_melhor_TV
(2)
video
(8)
Arquivo
Mensagens populares
-
Ando a falar de vazios em nós. A percepcioná-los em mim e em quem me rodeia. Dizemos que é... da cidade onde estamos, dos grupos a que ...
-
Hoje vai ser diferente. Hoje não vou dizer mais uma vez que estou a trabalhar ou que no dia em que queremos marcar encontros vou estar a ...
-
De Damon winter do blog: http://fotosilde.blogspot.com/ “Um menino disse mas as pessoas nao se encontram as pessoas constr...
-
Encontros. Não de palavras, e sim de tudo o que nem é preciso ser dito, porque é partilhado a um nível de sensibilidade intuitiva partilhad...
-
Doeu mais que um corte na pele. E disso tenho a certeza... Começa tudo com uma mulher, de meias, mas sem sapatos, sem um casaco num di...
-
É engraçado a forma como as músicas do Tiago Bettencourt acompanham a minha vida. Mais uma vez uma música espelha o que vivo, a transição q...
-
Todas as cores do mundo. Puro êxtase. É assim que vejo Copenhaga. Gente bonita. Espaços limpos. Acho que Copenhaga gosta de ser assim. Quan...
0 comentários:
Enviar um comentário